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Um dia o poeta

Luis Fernando Verissimo

Um dia o poeta sai de casa para uma das suas caminhadas e, distraído como é, se perde. Vem tentando consertar um poema na sua cabeça, rearrumando estrofes e ajustando a métrica, quando dá numa praça que nunca viu antes. Espantoso, pensa. Como vim parar aqui? E o que é aqui? Há anos que ando por esta cidade, conheço todas as suas ruas, todas as suas avenidas, todos os seus becos, todos os seus chafarizes e todas as suas praças – menos esta. Onde estou?

E então o poeta nota que há um busto no meio da praça, vai olhar e vê que o busto é dele. Nem precisaria ler a placa com seu nome. Se reconheceria pelo inconfundível nariz. Embaixo do seu nome está gravado um trecho de um dos seus poemas, errado. O que é isso? Meu busto no meio de uma praça, meu nariz em exposição... E meu poema malcopiado, de onde? O poeta nunca tinha publicado nada. Estava inédito como no dia do seu nascimento. Que, nota, também está na placa, junto com outra data. Uma data no futuro. Sua presumível morte. O que é isso?

O poeta interpela um homem que passa. Pergunta como é o nome da praça.

- É a antiga Praça das Acácias. Depois botaram o nome do nosso grande poeta...

E o homem indica o busto com um gesto da cabeça.

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Praça das Acácias! Claro, pensa o poeta. Muitos dos meus poemas nasceram aqui. Mas a praça está mudada. Cimento no chão em vez de pedras portuguesas. Bancos com pernas quadradas, em vez de pernas bem torneadas. Aquele horrendo busto no meio, em vez do chafariz. E nem sinal das acácias.

O poeta conta ao homem que se perdeu e precisa voltar para casa.

O bonde Mercado da Ajuda passa pela sua casa. Existe alguma parada do bonde Mercado da Ajuda ali por perto?

O homem não entende. O Mercado da Ajuda foi demolido há anos. E há anos não existem mais bondes na cidade.

O poeta tem um momento de pânico. Está bem que eu seja distraído, pensa, e me perca na cidade. Mas me perder no tempo é demais, até para um poeta. Calma, pensa. Tudo isto se explicará. E pode até ser aproveitado, poeticamente, quando eu me reencontrar. O importante agora é voltar para casa e me certificar que tudo está como eu deixei: meus gatos, meus poemas inéditos, meus pijamas dobrados... O poeta pergunta ao homem como chegar à Rua do Tambo. Dali ele pode pegar a Avenida Central, depois à esquerda no Beco da Lavadeirinha e... Mas o homem sacode a cabeça e diz que não pode ajudá-lo. Todos aqueles nomes foram mudados. Não existem mais.

Antes de se despedir do homem, o poeta aponta para o busto e pergunta:

- Ele era bom mesmo?

- Ah, era. O poeta da cidade.

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Com grande dificuldade, pois não reconhece mais nada no caminho (todas as casas antigas desapareceram para dar lugar a prédios, e há um bingo onde antes era o Beco da Lavadeirinha), o poeta consegue chegar em casa. não dá atenção à plaqueta da fachada que anuncia “Nesta casa morreu, em tal de tal de mil novecentos e tal, o poeta...” e entra. Os gatos estão bem, não parecem um dia mais velhos. Seus cadernos de poemas continuam empilhados no lugar de sempre. E continuam inéditos. Pelo menos dentro da sua casa, o tempo não passou.

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Naquela noite, lembrando os estranhos acontecimentos do dia já dentro do seu pijama, o poeta pensa: e se eu propuser um pacto? Um acerto? Eu não publico meus poemas, até paro de ser poeta, não fico famoso. Em troca, não envelheço e não morro, o tempo não passa, e a cidade não muda. Serei para sempre o poeta da outra cidade. Um poeta secreto, sem reconhecimento, e sem busto na praça, que continuará sendo das Acácias.

Sacrifico minha glória pela cidade perdida.

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Mas aí pensa: negociar com quem? Com Deus? Difícil. Significa mexer com a cronologia do mundo, complicado. E, mesmo, Deus não deve ouvir os poetas não-reconhecidos. Negociar com a prefeitura? Mais complicado ainda. O poeta desiste, suspira, e dorme.


Domingo, 3 de setembro de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.